Por Rubens Edmont Son

O novo filme de Godard foi capaz de superar os domínios já alcançados dentro da arte cinematográfica. Na película “Où Est Ma Chatte?” (”Onde Está Minha Periquita?”, numa das piores traduções ao português brasileiro jamais vistas até hoje) Selma Onoyef (Britney Spears) é uma moça engajada na luta pós-feminista contra um mundo machista e corporativista.
Selma inicia o filme olhando diretamente para as lentes da câmera, cena fatídica e importantíssima para entender o desenrolar da película. Durante 14 minutos, a platéia fica em mais puro silêncio, até que a cena corta secamente para a história propriamente dita. “São os olhos de Onoyef que narram o filme”, Godard parece nos dizer.
Na cena a seguir, estão Selma e um moço galanteador chamado Robert Duffrey (Alec Baldwin) e Selma pergunta, lenta e pausadamente, “você tem um pouco de á-g-u-a?” e quando o moço aponta a garrafa de água mineral, ela a utiliza de uma maneira inusitada - derramando-a por toda extensão de seu corpo, fazendo movimentos circulares. Ambos fazem sexo de maneira jamais retratada no cinema ocidental. Godard conseguiu ângulos incríveis simplesmente prendendo as câmeras em cima das cabeças dos atores “Meu pescoço quase caiu, tá doendo demais, gente?”, afirmou Britney após as filmagens.
Depois da estonteante cena sexual, mais cinco se seguem, nas quais Onoyef copula com os mais diversos personagens em busca da consecução de seu objetivo principal - só revelado na metade do filme - que é encontrar “A grande máquina de Secsbarr”. Durante suas desventuras pelo mundo que é tido como pecaminoso de acordo com os valores tradicionais da sociedade à qual pertence, Selma atinge o êxtase com Greg Druman (Charles Chepolis), Johhan Scarfforldt (Fofão), Hanna Lohan (Gretchen) e Georges Bizet (Atonnie Chuffoudar), experimentando uma expansão dos limites do próprio prazer.
As demais personagens dão dicas significativas para que Selma possa concretizar seu objetivo, mas Onoyef acaba e encontrando Anna Karovschka (Hebe Camargo) que, depois de uma sessão quente na jacuzzi, transporta Selma para uma dimensão tempo-espacial escondida entre as pelancas de seu seio esquerdo.
Selma, naquele mundo inóspito, encontra Paulinho Chan (Marilena Chausí) que a ensina coisas a respeito da nova dimensão na qual ela se encontra. A partir daí, Onoyef passa a viver para o vazio. É a negação do ser, o não-ser, o niilismo. É o cinema godardiano quebrando tabus e barreiras rumo a uma nova maneira de expressão som-imagética-cinestésica.